Novidades Janeiro-Julho 2022 | Obras em destaque

 

Em 2022, a nossa equipa desconfinada continuará a transmitir-vos a sua contagiante paixão pelos textos subversivos, a empurrar as palavras contra a ordem dominante e a dar aos leitores obras que contribuem para a compreensão dos acontecimentos que mudam a sociedade e as nossas vidas.

 

Eis a nossa colheita de Janeiro a Julho, com notas de insolência e aroma a subversão. Para degustar ao longo de 365 dias.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                

NOVIDADES EM DESTAQUE

 

17 de Janeiro

A Eliminação | Rithy Panh com Christophe Bataille | Antígona 

A Eliminação

Rithy Panh com Christophe Bataille

Tradução Paulo Faria

Autobiografia

Trinta anos depois da queda do regime de Pol Pot, um sobrevivente tornado cineasta regressa à terra natal para confrontar os seus carrascos. A Eliminação (2012) é a autobiografia da infância do aclamado cineasta Rithy Pahn, entrecortada pelos diálogos do realizador na cela de um dos maiores responsáveis pelo genocídio – Duch, director do campo de extermínio S21, que se esquiva à verdade para reconstruir a história e uma imagem de si. Recusando tanto a ideia de banalidade do mal como o mito de um povo que se exterminara a si próprio, Rithy Panh não renuncia a ouvir, da boca do condenado à sua frente, as palavras que lhe devolvam a humanidade.

 

21 de Fevereiro

 

Comboios Rigorosamente Vigiados

Bohumil Hrabal

Tradução do checo Anna Almeida

Romance

Pérola de humor, heroísmo e humanidade, Comboios Rigorosamente Vigiados (1965) leva-nos a uma pacata estação ferroviária na Checoslováquia ocupada pelos nazis, nos últimos dias da guerra na Europa. Entre o ramerrame de chegadas e partidas, gélidos cais e vagões, esvoaçam os pombos predilectos do chefe de estação, asas de aviões tombam no jardim do reitor da vila, a telegrafista arrebata corações e Miloš Hrma morre de amores pela bela Máša. Este jovem tímido – que herdou um hilariante historial de família, saborosamente contado por Hrabal, no qual assoma um avô que quis deter os tanques alemães pelo poder da hipnose – também um dia se decide a desafiar os invasores, demonstrando que a resistência habita por vezes os homens e os locais mais improváveis.

 

7 de Março

Betão – Arma de Construção Maciça do Capitalismo

Anselm Jappe

Tradução Miguel Serras Pereira

Ensaio

Uma reflexão que congrega a crítica do capitalismo, da arquitectura citadina e do betão armado por um autor da casa, Anselm Jappe. Partindo do episódio da queda da Ponte Morandi, em Génova, em 2018, como caso exemplar da obsolescência programada, e da premissa de que o betão – um dos materiais mais utilizados no planeta, produzido em quantidades astronómicas e com terríveis consequências ambientais – encarna por excelência a lógica do capitalismo, e traçando também o historial deste material, Betão (2020) é um protesto contra a uniformização capitalista do mundo.

 

4 de Abril

Joseph Andras 

Assim lhes fazemos a guerra

Joseph Andras

Tradução Luís Leitão

Novela

Depois da publicação de Dos Nossos Irmãos Feridos, em 2020, Joseph Andras continua a não dar tréguas na sua mais recente novela e a afirmar-se como uma das vozes mais combatentes e literárias da nova ficção francesa. Tríptico «dedicado aos rebeldes, aos desertores, aos sabotadores e aos pacifistas», no qual se cruzam tempos e causas – a feminista, a animal e a social –, Assim lhes fazemos a guerra (2020) conta-nos o destino de um cão em Londres, em 1903, de um macaco na Califórnia, em 1985, e de uma vaca nas Ardenas em 2014. Três histórias, entre muitas, de vidas que tiramos em nome do progresso, e que revelam a bestialidade humana e a passividade e a indiferença de muitos, questionando o domínio do homem sobre os animais, as mulheres e as minorias.

 

18 de Abril

Patrik Ourednik

O fim do mundo não terá acontecido

Patrik Ouředník

Tradução Júlio Henriques

Novela

O fim do mundo não terá acontecido (2017) apresenta-nos o tradutor Gaspard Boisvert, bisneto de Hitler (um segredo de família) e ex-conselheiro do «presidente norte-americano mais estúpido na história dos Estados Unidos». Em Paris, Boisvert sofre de incontroláveis enervamentos perante aquilo que tem de ouvir ou ler no seu dia-a-dia («a excisão do clítoris é um facto cultural que deve ser respeitado», assevera um conferencista; «nos países democráticos os média são independentes», sustenta uma socióloga; «a democracia ocidental é o derradeiro estádio de uma sociedade avançada», aventa alguém), situação que o conduz a uma forte amnésia, deixando mesmo de saber quem é. Na senda de Europeana (2017), Patrik Ouředník, aliando humor à Hasek e ironia à Rabelais, lança-se com unhas e dentes à estupidificação pela linguagem e ao cretinismo ascendente nos nossos dias.

 

23 de Maio

Silvina Ocampo

As Convidadas

Silvina Ocampo

Tradução Guilherme Pires

Contos

Depois da publicação d’A Fúria e Outros Contos, a Antígona prossegue a edição de obras-chave de Silvina Ocampo, praticamente inédita em Portugal até 2021. Obra de maturidade e um dos livros mais aplaudidos da autora, As Convidadas (1961) reúne, no bom estilo ocampiano, contos e relatos inquietantes sobre temas como a infância, o amor e a loucura, entre os quais «O Diário de Porfíria» e o conto que dá nome à colectânea.

 

6 de Junho

Karel Čapek

A Fábrica do Absoluto

Karel Čapek

Tradução do checo Anna Almeida | Ilustrações Josef Čapek

Romance

Quando, na senda do progresso, o mundo assiste à descoberta de um engenho capaz de produzir energia ilimitada por tuta-e-meia, poucos adivinhariam que esta maravilha moderna teria um grave efeito secundário: a libertação do Absoluto, a essência espiritual contida em toda a matéria, que converte todos os seres – dos mais mundanos aos levianos – em fervorosos fanáticos religiosos e nacionalistas convictos. Rapidamente o planeta vê a sua população transformada em multidões que ora fazem curas milagrosas, ora caminham sobre as águas e que em breve querem converter por todos os meios as nações vizinhas à sua verdade, indiscutivelmente a suprema e a melhor, desencadeando uma inevitável guerra global. A Fábrica do Absoluto (1922), sátira brilhante e premonitória que não ganhou uma ruga, é agora publicada em tradução directa do checo, com ilustrações do irmão do autor, retiradas da edição original.

 

20 de Junho

Malina

Ingeborg Bachmann

Tradução Helena Topa | Posfácio Elfriede Jelinek

Romance

No 51.º aniversário da publicação de Malina (1971), uma nova tradução deste clássico feminista moderno.

«Ingeborg Bachmann é a primeira mulher da literatura do pós-guerra, no espaço de língua alemã, a retratar, através de meios radicalmente poéticos, a continuação da guerra, da tortura, da aniquilação na sociedade e nas relações entre homens e mulheres.» Elfriede Jelinek

«Em Malina, não há nada que Bachmann não consiga fazer com as palavras.» The New York Review of Books

«O fascismo é a coisa primeira a vigorar na relação entre um homem e uma mulher. Eu quis dizer que aqui, nesta sociedade, a guerra é constante. Não há guerra e paz, há só guerra.» Ingeborg Bachmann

Clássico adaptado ao cinema por Werner Schroeter em 1991, com guião de Elfriede Jelinek, e Isabelle Hupert como protagonista, Malina (1971) é uma das grandes apostas editoriais deste ano da Antígona. Triângulo amoroso numa Viena decadente, viagem aos limites da linguagem e da loucura de uma mulher, mas, sobretudo, um retrato existencial lúcido e poderoso, Malina é o único romance de Ingeborg Bachmann, pensado como primeiro volume de uma trilogia interrompida pela morte da autora. Um romance de culto e aclamado, pela «mão da mulher mais inteligente e importante que a Áustria deu ao mundo», segundo Thomas Bernhard.

 

18 de Julho

Angela Davis

As Prisões Estão Obsoletas?

Angela Davis

Tradução Sadiq Habib

Ensaio

Depois da publicação de A Liberdade é uma Luta Constante, a Antígona dá à estampa As Prisões estão Obsoletas? (2003). Nesta obra, Angela Davis, estudiosa, activista, ícone dos movimentos negro e feminista, debruça-se sobre o conceito de encarceramento como punição, apontando-o como herança do modo de pensar esclavagista nos EUA, nação com a maior população carcerária do mundo, propondo uma transformação radical da forma como a sociedade contempla a punição, o desmantelamento de estruturas que condenam minorias ao encarceramento e a procura de formas alternativas aos actuais sistemas prisionais. 

 

18 de Julho

Felwine Sarr

Afrotopia

Felwine Sarr

Tradução Marta Lança

Ensaio

Afrotopia (2016) é um apelo convincente e uma reflexão importante sobre a necessidade de reinvenção e autodescoberta de um continente no século XXI: África, com trilhos a percorrer que não os impostos pela economia global. O académico, filósofo e músico Felwine Sarr conduz o leitor numa viagem por este continente – dos valores e tradições profundamente enraizados às filosofias comunitárias e ao seu rico universo mitológico –, revelando os contornos de uma africanidade contemporânea e incitando à valorização desta consciência colectiva.

 


Partilhar esta publicação


← -