A Máquina Pára e Outros Contos | Ípsilon (Público) | Recensão de Mário Santos | ★★★★

«O delírio da submissão

Uma dezena de contos fantásticos e de uma actualidade talvez inesperada.

O conto que dá título a esta colectânea de E. M. Forster, e que foi escrito e publicado há mais de cem anos, não é apenas uma alegoria distópica magistral, uma história de ficção-científica ou de “antecipação” de uma impressionante presciência (e que alguns constrangimentos recentes causados pela pandemia em curso tornaram pungente). É também um acabado exercício de melancólica ironia. Na terceira parte da narrativa, um “pensador” que faz uma conferência através de uma “plataforma” audiovisual que poderia chamar-se Zoom ou Google Meet, adverte o seu auditório: “Cuidado com as ideias em primeira mão! […] Deixem que as vossas ideias sejam em segunda mão e, se possível, em décima mão, porque, nesse caso, estarão bem afastadas desse elemento perturbador que é a observação directa. Não aprendam nada acerca deste meu assunto, a Revolução Francesa. Em vez disso, aprendam o que eu penso que Enicharmon pensava que Urizen pensava que Gutch pensava que Ho-Yung pensava que Chi-Bo-Sing pensava que Lafcadio Hearn pensava que Carlyle pensava que Mirabeau tinha dito acerca da Revolução Francesa.” (p. 45) Não era Barthes quem há mais de meio século notava também que os livros (e os filmes, etc.) se tinham tornado menos importantes do que os artigos e recensões de jornais a que davam origem, assim nos dispensando de os ler (e ver, etc.)? Não deixa de ser aqui legível a consciência elegíaca de que a experiência “directa” do mundo, acima referida, estaria cada vez menos ao alcance de sociedades tecnológica e culturalmente hipermediatizadas. Remata o conferencista de Forster: “E com o passar do tempo […] virá uma geração que terá ultrapassado os factos” — isto é, que os terá dispensado. Não estou certo de não vivermos já nesse tempo.

Na sociedade atomizada descrita em A Máquina Pára, os seres humanos “libertaram-se” dos contactos presenciais e físicos com outros seres humanos e com o mundo em geral. Na “colmeia” subterrânea em que este se transformou, cada um vive isolado no seu “alvéolo”, rodeado por “ar artificial, luz artificial, paz artificial”, no qual tudo — alimentação, medicamentos, ideias — lhe é providenciado pela Máquina: “Havia botões e interruptores por todo o lado — botões para pedir comida, música, roupas.” Havia até “o botão que produzia literatura. E, claro, havia botões através dos quais ela [a personagem] comunicava com os amigos. A divisão, embora não contivesse nada, estava em contacto com tudo aquilo que ela estimava no mundo.” (p. 21) O desejo de viajar, no qual “a civilização anterior depositara tantas esperanças”, fora finalmente vencido, uma vez que, “graças ao progresso da ciência”, a Terra e os seres humanos se haviam uniformizado: “De que servia ir a Pequim se era exactamente igual a Shrewsbury?” (p. 25). Subsiste uma “reminiscência da era dos resíduos — um livro”. Trata-se do Livro da Máquina, no qual se pode procurar e encontrar tudo, inclusivamente palavras de que não nos lembramos e horários de aeronaves. Dispenso-me aqui de analogias evidentes. O que é mais inquietante é que a feliz atonia do mundo descrito no conto não parece resultar de nenhum sistema político ditatorial e opressivo mas, antes, de uma espécie de servidão voluntária dos seus habitantes, que leva uma das duas personagens do conto, Vashti, a beijar ritualmente o Livro da Máquina. Foster chama-lhe “o delírio da submissão”. O momento disruptivo do conto ocorre quando Kuno, filho de Vashti, diz à mãe (para espanto e horror desta) que a Máquina “não é tudo” e que está cansado de videochamadas (é verdade!). Quer vê-la “cara a cara”. Afinal, “as paixões humanas continuavam a errar, tresloucadas, no interior da Máquina.” Talvez haja ainda esperança.»

Pode ler-se o artigo completo aqui.


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