Caminhos da Insubmissão | Recensão | Livros para Atravessar a Semana

Há duas semanas, a jornalista e crítica literária Sara Figueiredo Costa recomendou a leitura de Caminhos da Insubmissão, de Jorge Valadas, na sua rubrica Livros para Atravessar a Semana.

«Em 1967, Jorge Valadas abandonou a Escola Naval, assumindo-se desertor, e partiu para Paris, deixando para trás o bafiento regime salazarista. Aí terá forjado a sua vida norteada pelos princípios libertários, entre livros – muitos — e conversas, participando em debates intensos sobre política, observando o que o rodeava e reflectindo sem baias ou dogmas, intervindo em colectivos e acções várias (no Maio de 68, também). Para além de Paris, outras paragens e viagens se registam no texto, nomeadamente a longa passagem pelos Estados Unidos da América. Este livro compõe um extraordinário relato autobiográfico, sempre consciente do contexto social, político e económico e das interacções que com ele se vão produzindo, sempre honesto no modo como apresenta as dúvidas, as incoerências e os ímpetos que nos vão definindo — mesmo que queiramos acreditar que somos só certezas antecipadas e escolhas sem margem para titubear.

Caminhos da Insubmissão (com edição da Antígona e tradução de Júlio Henriques) será a história de parte da vida do autor, contada na primeira pessoa, mas é também um belo pedaço de prosa que nos põe a pensar sobre os lugares que vamos tendo e escolhendo no mundo, os deslumbramentos e as desilusões, as coisas a que nos agarramos e as eternas discussões a que não podemos responder só com um encolher de ombros: "Nas manifestações, não é raro ver os retratos de Mao, Ho Chi Minh e Kim Il-sung. E senti várias vezes uma franca hostilidade a qualquer observação crítica relativa a estas personagens sanguinárias; como se eu me situasse do lado do poder americano. Sempre esta armadilha do torto silogismo de banal conversa de café: os inimigos dos nossos inimigos seriam necessariamente nossos amigos." (p.144) É preciso não desistir de pensar.»