A publicar até ao fim do ano | Setembro-Novembro 2021

 

Em 2021, a nossa equipa confinada e de álcool-gel em riste promete continuar a transmitir-vos a sua contagiante paixão pelos textos subversivos, a empurrar as palavras contra a ordem dominante e a dar aos leitores obras que contribuem para a compreensão dos acontecimentos que mudam a sociedade e as nossas vidas.

 

Divulgamos aqui a nossa colheita Setembro-Novembro, com notas de insolência e aroma a subversão. Para degustar ao longo de 365 dias.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                

NOVIDADES EM DESTAQUE

27 de Setembro

Escada Líquida – Conversas Inéditas com Surrealistas Portugueses

Eduarda Feio e Maria Aurélia Marcelino

Prefácio de António Cândido Franco

A publicar até ao fim do ano | Setembro-Novembro 2021

Em 1978, duas alunas da Escola Superior de Belas-Artes entrevistavam com desenvoltura, de gravador na mão e caneta em riste, Mário-Henrique Leiria, na sua «Casa de Usher» em Carcavelos (uma das poucas entrevistas dadas pelo autor), Henrique Risques Pereira, no Grémio Literário de Lisboa, e Cruzeiro Seixas, num banco de jardim. Procuraram em vão e caricatamente por Fernando Alves dos Santos na lista telefónica e chegaram a Pedro Oom por via mediúnica. Mário Cesariny, o «papa do surrealismo português», recusou-lhes a entrevista. Até hoje inéditas, as presentes conversas, ao brotar do discurso, são um testemunho vivo e espontâneo, sem meias-medidas nem papas na língua, sobre o percurso de vários surrealistas e sobre «a máquina de lavar o cérebro» que foi o surrealismo em Portugal.

 

27 de Setembro

Pesadelo em Ar Condicionado

Henry Miller

Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

Após dez anos na Europa, Henry Miller regressa aos Estados Unidos para embarcar numa viagem de redescoberta das raízes e da alma do seu país. Pesadelo em Ar Condicionado (1945) é o relato dessa odisseia: sobre as ruínas do sonho americano, erguem-se indústrias hipócritas e cidades aberrantes, mecas de negócios, ganâncias e bugigangas, mortos-vivos enterrados em crédito e preconceitos, gente de cifrões nos olhos divorciada da terra que pisa e explora. Numa prosa desconcertantemente clarividente, da janela aberta do seu automóvel, Henry Miller faz o implacável retrato de um país que ainda hoje reconhecemos: um país de grandes esperanças, promessas traídas e insanáveis contradições.

 

11 de Outubro

As Transformações do Homem

Lewis Mumford

Tradução de Fernanda Barão e Isabel Fernandes | Prefácio e notas de Jorge Custódio

Depois da publicação de Técnica e Civilização, a Antígona dará à estampa As Transformações do Homem (1956), obra premonitória sobre a evolução do homem exposto à tecnologia e ao progresso sem consciência, analisando a desumanização e os seus perigos: a regressão histórica da humanidade ao sabor dos seus instrumentos e a crescente irracionalidade da nossa espécie proporcional à galopante racionalização de métodos de produção.

 

11 de Outubro

Comboios Rigorosamente Vigiados

Bohumil Hrabal

Tradução do checo de Anna Nemcová de Almeida

A publicar até ao fim do ano | Setembro-Novembro 2021

Comboios Rigorosamente Vigiados (1965) é uma pérola de humor, heroísmo e humanidade, adaptado ao cinema por Jiri Menzel em 1968. Acompanhamos neste livro a vida numa pacata estação ferroviária da Checoslováquia ocupada pelos nazis, nos últimos dias da guerra na Europa. Milos Hrma é um tímido e jovem aprendiz, com um hilariante historial de família – saborosamente contado por Hrabal –, no qual se destaca um avô que quis deter os tanques alemães pelo poder da hipnose. Um dia, também Milos, o herói desta novela, se decide a desafiar os invasores, demonstrando que a resistência habita por vezes os homens e os locais mais improváveis. 

 

25 de Outubro

Viver a Minha Vida

Emma Goldman

Tradução e prefácio de Luís Leitão

Emma Goldman (1869-1940): figura maior do anarquismo, precoce defensora da igualdade e da independência da mulher, da liberdade de pensamento e de expressão, do sindicalismo e da emancipação sexual, moldou, pela defesa destas causas, o contexto histórico de alguns dos debates políticos e sociais do nosso tempo. Em Viver a Minha Vida, a sua autobiografia, Goldman exila-se aos 16 anos nos Estados Unidos e rapidamente mergulha no seu mar político e intelectual. Expulsa do país em 1919, regressa à Rússia, onde prosseguirá a sua luta pela emancipação. Vertiginoso fresco histórico, onde tantas figuras revolucionárias se cruzam, Viver a Minha Vida é uma poderosa obra de rara sensibilidade e uma das mais belas odes à revolta e à liberdade.

 

25 de Outubro

Do Assassínio como uma das Belas-Artes

Thomas de Quincey

Tradução de João da Fonseca Amaral

Clássico do humor negro e da provocação, Do Assassínio como uma das Belas-Artes (1827) é uma prelecção sobre, digamos assim, a arte de mandar alguém ir conhecer o Criador – ir desta para melhor, fazer tijolo – à luz de considerandos estéticos, por se tratar esse de um exercício, segundo o autor, tão digno de ser apreciado como uma bela obra artística. Sobretudo, quando já se difundia a noção de que, para um assassínio a preceito, comme il faut, se exigia «mais do que dois néscios, um para matar e outro para morrer, uma faca, uma bolsa e uma viela escura». Analisando vários casos, de Caim a aficionados seus contemporâneos com provas dadas na área, esta obra de Thomas de Quincey, autor de Confissões de Um Opiómano Inglês, influenciou amplamente gerações de escritores, entre os quais G. K. Chesterton, Charles Baudelaire, Nikolai Gogol e Jorge Luis Borges.

 

8 de Novembro 

Diário (1953-1958) – Volume I

Witold Gombrowicz

Tradução do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz

A primeira tradução portuguesa, feita directamente do polaco, da magnum opus de Witold Gombrowicz.

«O Diário é a sua obra mais pessoal, mas é também a sua obra mais universal. A defesa do seu Eu é nada mais, nada menos do que a defesa do indivíduo em face de uma era em que a sua existência era negada.» Rita Gombrowicz

Em 1939, o escritor polaco Witold Gombrowicz – «um implacável caçador de mentiras», segundo Bruno Schulz, e, a par de Kafka e Joyce, um dos maiores autores de vanguarda do século XX –, chegava à Argentina, a bordo do transatlântico Chobry. Poucos dias depois, estalava a Segunda Guerra Mundial e começava um exílio de mais de duas décadas. Com parcos recursos e isolado, foi nesta segunda pátria que escreveu o grosso da sua obra (Transatlântico, Pornografia, Cosmos), bem como este monumental Diário, a sua magnum opus, iconoclasta e humanista. «Incomparavelmente rico – autobiografia em movimento, ensaio e obra de arte –, o Diário de Gombrowicz ocupa um lugar único na literatura contemporânea» (Rita Gombrowicz). Proibido pelo regime comunista, Diário foi publicado na Polónia apenas em 1986.

 

8 de Novembro 

Nós, Refugiados / Para lá dos Direitos do Homem

Hannah Arendt / Giorgio Agamben

Tradução e estudo anexo de José Miranda Justo

«Tínhamos perdido a nossa pátria, o que significa que perdêramos a familiaridade com a nossa vida quotidiana. (...) Tínhamos perdido a nossa língua, o que representa que perdêramos a naturalidade das reacções, a simplicidade dos gestos, a expressão não afectada dos sentimentos.» Hannah Arendt

Em 1943, Hannah Arendt exilava-se nos Estados Unidos e escrevia, na língua do país que a acolhera, o ensaio «Nós, Refugiados», publicado na revista judaica The Menorah Journal. Nele abordava a crise de identidade do povo judeu, problematizando a questão da assimilação e a condição do «refugiado», propondo-a como «paradigma de uma nova consciência histórica». Em Junho de 1993, cinquenta anos depois, Giorgio Agamben, em «Para lá dos direitos do homem», inicialmente publicado no jornal Libération, reflectia e dialogava com o texto de Hannah Arendt, tomando por ponto de partida um outro conjunto de «figuras de fronteira», os palestinos em Israel. Neste volume recolhe-se a imagem desse diálogo transcontinental e transtemporal, ao mesmo tempo actual e pertinente à luz do estado do mundo.

 

22 de Novembro

Malina

Ingeborg Bachmann

Posfácio de Elfriede Jelinek | Tradução de Helena Topa

No quinquagésimo aniversário da publicação de Malina (1971), uma nova tradução deste clássico feminista moderno, posfaciada por Elfriede Jelinek.


© Heinz Bachmann

«Ingeborg Bachmann é a primeira mulher da literatura do pós-guerra, no espaço de língua alemã, a retratar, através de meios radicalmente poéticos, a continuação da guerra, da tortura, da aniquilação na sociedade e nas relações entre homens e mulheres.» Elfriede Jelinek

«O fascismo é a coisa primeira a vigorar na relação entre um homem e uma mulher. Eu quis dizer que aqui, nesta sociedade, a guerra é constante. Não há guerra e paz, há só guerra.» Ingeborg Bachmann

«Em Malina, não há nada que Bachmann não consiga fazer com as palavras.» The New York Review of Books

«Um clássico feminista.» The Paris Review

Clássico adaptado ao cinema por Werner Schroeter em 1991, com guião de Elfriede Jelinek, e Isabelle Hupert como protagonista, Malina (1971) é uma das grandes apostas editoriais da Antígona na rentrée deste ano. Triângulo amoroso numa Viena decadente, viagem aos limites da linguagem e da loucura de uma mulher, mas, sobretudo, um retrato existencial lucido e poderoso, Malina é o único romance de Ingeborg Bachmann, pensado como primeiro volume de uma trilogia interrompida pela morte da autora. Um romance de culto e aclamado, pela «mão da mulher mais inteligente e importante que a Áustria deu ao mundo», segundo Thomas Bernhard. 

  


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